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Maria Bolacha

Maria Bolacha ou Bolacha Maria. Alcunha da adolescência que persisto em conservar.

Maria Bolacha

Maria Bolacha ou Bolacha Maria. Alcunha da adolescência que persisto em conservar.

Pelo Tejo, vai se para o mundo!

[Não há dia que não abrace o rio Tejo. Como se fosse parte da minha essência, parte de mim. E quem está ao pé dele, não pensa em nada, está só ao pé dele.]

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O Tejo tem Lisboa. Almada, tem os dois. Como se as duas margens namorassem um só amor.

Se o Tejo fosse um homem, Lisboa seria a esposa oficial e Almada sua amante. Daquelas que se tem uma vida inteira sem ninguém saber. Cúmplice calada do seu sucesso e sempre pronta a envolve-lo com as suas margens selvagens e deslumbrantes.

São várias as histórias do "Tejo". Travessias paginadas em tantas vidas que estas águas cruzam. Bonitas histórias de amor, de desencontros e encontros, de rotinas e de coisas simplesmente passageiras.

Este rio que foi a minha rua. Onde passeei vezes sem conta pelas margens. Onde vi as maiores luas cheias de que tenho memória. Onde mergulhámos exaustivamente do pontão. Onde boiámos debaixo da ponte e por sorte não levamos com nada em cima.

E nadei, nadámos tanto nestas águas onde também, agora, nadam os golfinhos.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo, como diz Fernando Pessoa.

"O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia. Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia. Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. (...) O rio da minha aldeia não faz pensar em nada. Quem está ao pé dele está só ao pé dele." 

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Terei sempre uma dívida para com as águas do rio da minha "aldeia". Fiel companheiro das noites aluadas e quentes de verão. Cúmplice supremo dos meus pensamentos. Como uma espécie de sombra que não se vê mas que nos acompanha. Abraça. As suas águas guardam segredos únicos. Refletem os silêncios da nossa alma. Os nossos desejos mais escondidos. Os momentos mais felizes e marcantes.

Não há dia que não abrace o rio Tejo. Como se fosse parte da minha essência, parte de mim.

E quem está ao pé dele, não pensa em nada, está só ao pé dele.

 




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Mergulhos no Tejo, quem já deu?

[Curioso como a vida é feita de pequenos pormenores! Pequenos momentos, toques, cheiros, palavras.]

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O "croissant" torrado com manteiga e a meia de leite que bebia no café "Brito" no Pragal com 16 anos, o som da minha avó a descascar favas e batatas na minha infância, enquanto a ajudava a fazer a minha sobremesa favorita. O cheiro único da casa da minha tia Mila e do meu tio Manel, onde passava alguns dias das férias de Verão com os meus primos! As ervilhas que eu fingia gostar e que sorrateiramente guardava no bolso para depois mandar fora! As bombocas de morango com que nos deliciávamos nas tardes passadas a andar de bicicleta na rua. As vezes que nos fechávamos dentro da tenda e fingíamos estar a dormir, só para não nos expulsarem da festa, porque queríamos ficar lá até segunda-feira. (sim, porque não há festa como aquela). Os valentes mergulhos do pontão, os passeios no barco do meu pai e as braçadas Tejo afora nas tardes de Verão de Agosto, que pareciam não ter fim.


A vida é feita de memórias e as memórias, feitas de pormenores que fazem toda a diferença. Enquanto os vivemos não pensamos muito neles, mas eles ficam eternizados em nós.
A casa da minha tia Mila e do tio Manel, o lar, onde o meu pai cresceu, por ter ficado órfão, não podia ficar vazia. Não podia. Mesmo que com as obras mude o cheiro, porque vai mudar, mesmo que os meus tios já tenham partido há uns meses e não voltem. As memórias estarão sempre escritas naquelas paredes, no vau de escada, na varanda de onde se vê o rio, aquele rio tão nosso, com Belém ao fundo.

Fui tão feliz aqui!!! Tão feliz ali!

Deixei a casa mágica uns anos depois de escrever este texto e a verdade é que ainda hoje sinto que falta um pouco de mim. Estou longe da essência catraia, de quem cresceu aos mergulhos e fez do Tejo a sua rua.

Um dia destes faço como os miúdos. Aliás, eu já fui um dos miúdos da fotografia. Quando foi o meu tempo de o ser. Sei o que se sente. Não desperdicei o momento. Posso dizer: "Been there, seen that".