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Maria Bolacha

Maria Bolacha ou Bolacha Maria. Alcunha da adolescência que persisto em conservar.

Maria Bolacha

Maria Bolacha ou Bolacha Maria. Alcunha da adolescência que persisto em conservar.

O clube que chamavamos Lisnave!

[Era raro encontrar uma família, que não tivesse um marido, um primo, um tio ou até mesmo um vizinho a trabalhar na LISNAVE. Haviam ruas inteiras. Desciam em grupos a Mutela.
Os locais, como o meu pai, sabiam o desvio. Pela ribanceira, onde hoje é a Quinta da Alegria e encurtavam muitas vezes o caminho.]

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Estes dias foram intensos.
Não só porque perdi um dia de descanso, o que encurta o fim de semana, de si já tão curto.
Mas com a velocidade com que as memórias me têm invadido estes dias, sinto que se aproveitasse este potencial, podiam sair daqui coisas bonitas.
Mas já é tão tarde e não me posso alongar muito.

Queria contar-vos, que quando era criança, estas 7 letras juntas simbolizavam muito mais que um dos maiores estaleiros navais do mundo. Simbolizavam muito mais que o trabalho da vida do meu pai. Era um mundo dentro do mundo. Uma família que se prolongava da que se tinha em casa. A casa mãe, onde tantos, mas tantos entraram rapazinhos e se fizeram homens. Aprenderam um ofício.

Era raro encontrar uma família, que não tivesse um marido, um primo, um tio ou até mesmo um vizinho a trabalhar na LISNAVE. Haviam ruas inteiras. Desciam em grupos a Mutela.
Os locais, como o meu pai, sabiam o desvio. Pela ribanceira, onde hoje é a Quinta da Alegria e encurtavam muitas vezes o caminho.

E havia um clube. Onde aprendi a nadar. A sonhar. A treinar. A competir até ao dia em que o querer mais me levou a sair. Deixei a casa mãe, mas fui para outra grande casa mais à frente na avenida: A SFUAP.

Mas nunca esqueci aqueles recantos. Voltei quase 20 anos mais tarde a esta casa, para ensinar, o que lá tinha aprendido: a nadar. Um ou dois anos depois de sair e ir trabalhar na minha área de estudo, o Clube Lisnave fechou.

Todos os anos, dia 1 de Junho, a piscina desse clube abria aos Almadenses e íamos, nós, as crianças, pintar o muro do parque infantil que lá existia e a tarde terminava com valentes mergulhos a comemorar o nosso dia e a abertura da época balnear.

Durante os primeiros anos da minha infância, tive a sorte, de ter aquele paraíso como quintal o ano inteiro.

Quando às 16h30m, o alarme de saída soava, o serralheiro mecânico saía e transformava-se. Passava a ser o director da piscina, o "senhor faz de tudo" para que no Verão seguinte a piscina voltasse a abrir para quem quisesse dela usufruir.
Vi o meu pai, ser jardineiro, carpinteiro, pintor, varredor, nadador salvador e até homem da casa das máquinas.
E enquanto ele andava por ali, eu andava por ali também. Espaço não me faltava.

Quando se aproximava o meio do mês de maio, chegava a altura de começar a encher. Era o verdadeiro momento solene para mim. E quantas mas quantas vezes aquela piscina começou a encher comigo lá dentro, completamente eufórica, pois afinal, estava a chegar mais um Verão.
- Vou abrir! - gritava o meu pai - Vou abrir!!!!!

Ele abria as válvulas e a água começava a entrar.
Era a felicidade pura de uma criança que tinha o paraíso nos pés.
Olhar para aquilo agora é indescritível. Há momentos em que as palavras são pequenas para descrever o que sentimos.
Olho para aquilo agora e só me apetece chorar.
Fui tão feliz ali. Era feliz todos os dias. Todos os dias.