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Maria Bolacha

Maria Bolacha ou Bolacha Maria. Alcunha da adolescência que persisto em conservar.

Maria Bolacha

Maria Bolacha ou Bolacha Maria. Alcunha da adolescência que persisto em conservar.

O ano inteiro à espera: das 24 horas a Nadar!

[Fiquei incumbida do privilégio de acender a tradicional chama. Uma grande honra, que só estava ao alcance de alguns. Aqueles que por alguma razão se tinham destacado nos seus resultados. Mas mais do que memorável, para mim foi um momento especial, foi mesmo uma grande honra, uma grande responsabilidade.]

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Ser um desportista federado nos anos 80 e 90, em Portugal, era um pouco diferente de hoje. Ainda mais se o desporto em questão for: a natação. Hoje, há piscinas por todo o lado. [felizmente] Qualquer "aldeola" tem uma e, consequentemente, o acesso a uma das melhores coisas da vida: nadar.

No meu tempo, haviam duas piscinas abertas ao público no concelho de Almada. A primeira foi onde nasci, como já expliquei anteriormente e já não existe. Era o Clube Lisnave.  A segunda, para onde me mudei, de malas e bagagens, tinha 8 anos de idade. A SFUAP. Casa que hoje faz 129 anos de existência.

Nesse tempo, em meados de Setembro, havia uma grande festa. Uma prova única no país chamada 24 horas a nadar e onde participei anos a fio. Organizada por essa instituição. Uma festa que começava e acabava na natação, mas que estava longe de ser uma simples prova de natação. Onde acabavam por estar também todas as outras modalidades envolvidas. Desde a banda filarmónica, à ginástica, do judo ao atletismo, todos participavam de alguma maneira. No caso do atletismo, eram esses atletas que traziam a chama desde o parque de campismo na Costa de Caparica, até à Cova do Piedade, a correr.

Era mesmo uma grande festa, com foguetes de hora a hora e a população muito envolvida na assistência e nas comemorações. Com palco para música e onde muitos, muitos artistas, por lá passaram e que nos deram música enquanto nadávamos.

Eram assim as 24 horas a nadar. Três pistas onde permanentemente e durante 24 horas não se parava de nadar. Uma celebração da modalidade como nunca se viu noutro lugar, nem se vê agora. Era para os mais duros. Os filhos da casa, estavam 24 horas sem sair dali. Comíamos ali, dormíamos ali. Convivíamos ali. Haviam verdadeiras equipas de voluntários que, incansavelmente, garantiam toda a exigente logística que os atletas necessitam: comer a horas [e bem] e descansar depois do esforço.

A qualquer momento, poderíamos ser recrutados para nadar. Longe das horas nobres da assistência e das horas em que tínhamos convidados de outros clubes e normalmente por longos períodos de tempo, garantindo assim, que as três pistas, nunca paravam.

Lembro me de estar a dormir e de irem acordar-me às 4h30m para ir nadar uma hora das 5 horas às 6 horas da manhã. Dúvidas? Eu já tinha dito que era só para duros e para verdadeiros "doentes", ainda que saudáveis, amantes incondicionais da modalidade.

Corria o ano de 1991. Fiquei incumbida do privilégio de acender a tradicional chama. Uma grande honra, que só estava ao alcance de alguns. Aqueles que por alguma razão se tinham destacado nos seus resultados.
Mas mais do que memorável, para mim foi um momento especial, foi mesmo uma grande honra, uma grande responsabilidade.
Tão solene. Marcou. Se marcou.

Ás vezes, ainda me sinto parada à entrada do recinto da piscina, lado a lado com a Presidente Maria Emília, à espera da chama que vinha da Costa de Caparica. Era uma espera feita com as pernas a tremer, mas eles lá acabariam por chegar, eu pude acender a chama e as 24 horas lá começaram. Com o recinto à pinha, cabeças por todo o lado. Com balões, música, foguetes e muita, mas muita gente a gritar. Era dada a partida.

Era mesmo uma grande festa. Daquelas da série SER FELIZ TODOS OS DIAS. E aqui fui feliz todos os dias! E mais alguns!

Não sei onde isto tudo se perdeu? E como se perdeu? Mas a verdade, é que se perdeu... inexplicávelmente. 

Como deixámos que isto se perdesse? 

Mas hoje é dia de celebrar e de boas memórias. Ficou pelo menos isso, a boa memória que eu guardo e que muitos guardarão também. Num lugar especial. Bem dentro.Para não se perder da memória também.

Parabéns SFUAP! Sempre no coração!