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Maria Bolacha

Maria Bolacha ou Bolacha Maria. Alcunha da adolescência que persisto em conservar.

Maria Bolacha

Maria Bolacha ou Bolacha Maria. Alcunha da adolescência que persisto em conservar.

[Sustentos]

[Aqui, a vida torna-se outra coisa. Melhor. Mais leve e mais doce. Mais simples e fácil de levar.]

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Não faço do mar o meu sustento, mas preciso dele para viver. Para sentir-me viva e em casa.

Eu pertenço aqui.

Nestas areias estão entranhados momentos, memórias, sestas, banhos de sol e de mar. Sorrisos e alegrias. Choros e algumas tristezas. Dias de sol, dias de chuva. Aqui aprendi a ser impermeável a dias cinzentos.

As gaivotas podem não ser mais as mesmas. As marés podem até ser outras e até mais avassaladoras. Mas eu pertenço aqui.

Aqui, a vida torna-se outra coisa. Melhor. Mais leve e mais doce. Mais simples e fácil de levar.

Sintam esta maresia!!!

Doce cheiro a casa.

Sobre Sal, Areia e Mar.

[Afinal, ia sempre buscar mais um. Havia sempre mais um. E não era peixe. Era gente.]

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Cresci a ver isto. Na primeira fila.

Nestes ares, nestas areias, neste mar. Neste oceano encantado que nos banha.
Fui banhista, sereia, repórter, turista em casa. Fui um vulto que se confundiu com o mar.

Aqui dei os primeiros mergulhos no mundo selvagem e apanhei as minhas primeiras ondas. Fiz longas caminhadas de quilómetros e quilómetros e dormi sestas profundas. Ao sol, à sombra, houve para todos os gostos.

Escalei as rochas e apanhei mexilhão. Passeei de comboio até ao fim da linha neste, outrora, imenso e extenso areal. Conheço lhe as marés. Conheço cada cheiro, cada brisa ou vento forte que sopre. Conheço os pores-do-sol intermináveis. Inconfundíveis, com o Bugio a assistir ao longe.

Cresci a ver o peixe ser pescado e a ver as gaivotas à espera, impacientemente, da sua quota parte do bolo. Cresci a assistir a toda esta arte que é tão nossa. A comer bolas de Berlim.

Cresci o suficiente para perceber que o meu pai, nadador salvador credenciado mas que apenas praticava por afinidade, queria realmente dizer-me, quando dizia:

- Ana, o pai já vem e não te pode levar. Por favor não saias daqui do chapéu!
[ele que me levava para todo o lado]

Afinal, ia sempre buscar mais um. Havia sempre mais um.
E não era peixe. Era gente.

Gente que não soube respeitar o poder imenso do mar e se atrevia.
Hoje sempre podem contar uma história. Daquelas com final feliz, porque alguém cumpriu o seu dever e mais um bocadinho. E ainda bem.
Doce e intenso cheiro a casa. Tão bom!

O ano inteiro à espera: das 24 horas a Nadar!

[Fiquei incumbida do privilégio de acender a tradicional chama. Uma grande honra, que só estava ao alcance de alguns. Aqueles que por alguma razão se tinham destacado nos seus resultados. Mas mais do que memorável, para mim foi um momento especial, foi mesmo uma grande honra, uma grande responsabilidade.]

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Ser um desportista federado nos anos 80 e 90, em Portugal, era um pouco diferente de hoje. Ainda mais se o desporto em questão for: a natação. Hoje, há piscinas por todo o lado. [felizmente] Qualquer "aldeola" tem uma e, consequentemente, o acesso a uma das melhores coisas da vida: nadar.

No meu tempo, haviam duas piscinas abertas ao público no concelho de Almada. A primeira foi onde nasci, como já expliquei anteriormente e já não existe. Era o Clube Lisnave.  A segunda, para onde me mudei, de malas e bagagens, tinha 8 anos de idade. A SFUAP. Casa que hoje faz 129 anos de existência.

Nesse tempo, em meados de Setembro, havia uma grande festa. Uma prova única no país chamada 24 horas a nadar e onde participei anos a fio. Organizada por essa instituição. Uma festa que começava e acabava na natação, mas que estava longe de ser uma simples prova de natação. Onde acabavam por estar também todas as outras modalidades envolvidas. Desde a banda filarmónica, à ginástica, do judo ao atletismo, todos participavam de alguma maneira. No caso do atletismo, eram esses atletas que traziam a chama desde o parque de campismo na Costa de Caparica, até à Cova do Piedade, a correr.

Era mesmo uma grande festa, com foguetes de hora a hora e a população muito envolvida na assistência e nas comemorações. Com palco para música e onde muitos, muitos artistas, por lá passaram e que nos deram música enquanto nadávamos.

Eram assim as 24 horas a nadar. Três pistas onde permanentemente e durante 24 horas não se parava de nadar. Uma celebração da modalidade como nunca se viu noutro lugar, nem se vê agora. Era para os mais duros. Os filhos da casa, estavam 24 horas sem sair dali. Comíamos ali, dormíamos ali. Convivíamos ali. Haviam verdadeiras equipas de voluntários que, incansavelmente, garantiam toda a exigente logística que os atletas necessitam: comer a horas [e bem] e descansar depois do esforço.

A qualquer momento, poderíamos ser recrutados para nadar. Longe das horas nobres da assistência e das horas em que tínhamos convidados de outros clubes e normalmente por longos períodos de tempo, garantindo assim, que as três pistas, nunca paravam.

Lembro me de estar a dormir e de irem acordar-me às 4h30m para ir nadar uma hora das 5 horas às 6 horas da manhã. Dúvidas? Eu já tinha dito que era só para duros e para verdadeiros "doentes", ainda que saudáveis, amantes incondicionais da modalidade.

Corria o ano de 1991. Fiquei incumbida do privilégio de acender a tradicional chama. Uma grande honra, que só estava ao alcance de alguns. Aqueles que por alguma razão se tinham destacado nos seus resultados.
Mas mais do que memorável, para mim foi um momento especial, foi mesmo uma grande honra, uma grande responsabilidade.
Tão solene. Marcou. Se marcou.

Ás vezes, ainda me sinto parada à entrada do recinto da piscina, lado a lado com a Presidente Maria Emília, à espera da chama que vinha da Costa de Caparica. Era uma espera feita com as pernas a tremer, mas eles lá acabariam por chegar, eu pude acender a chama e as 24 horas lá começaram. Com o recinto à pinha, cabeças por todo o lado. Com balões, música, foguetes e muita, mas muita gente a gritar. Era dada a partida.

Era mesmo uma grande festa. Daquelas da série SER FELIZ TODOS OS DIAS. E aqui fui feliz todos os dias! E mais alguns!

Não sei onde isto tudo se perdeu? E como se perdeu? Mas a verdade, é que se perdeu... inexplicávelmente. 

Como deixámos que isto se perdesse? 

Mas hoje é dia de celebrar e de boas memórias. Ficou pelo menos isso, a boa memória que eu guardo e que muitos guardarão também. Num lugar especial. Bem dentro.Para não se perder da memória também.

Parabéns SFUAP! Sempre no coração!

A carta que te escrevi no deserto!

[Tem nome de CASA. Tem abraço de porto de abrigo. Tem paz. Tem luz. E tem Almadenses, muitos. Sim somos muitos mil. E fazemos serenatas ao Tejo.]

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 A margem sul é uma seca. Hoje escrevo-vos do deserto.

As tarde de outono no deserto, são assim. Não há água. Não há verde. Não há árvores para fazer sombras. Não há música para dar ambiente. Ainda por cima, a paisagem é horrível. E sobretudo, só se vê areia. :P

Lembro-me que houve um tempo em que "alguns" achavam que isto era um deserto. Só cá faltavam camelos e muitos cactos, espaçados por entre quilómetros e quilómetros de dunas de areia. Ah e faltava a areia também.

Feitas as contas, afinal faltava tudo para ser um deserto.E o único camelo, talvez fosse ele. Pelo menos cego devia ser.
Eu, isto, apelido de meu paraíso!!!! Tem nome de CASA. Tem abraço de porto de abrigo. Tem paz. Tem luz. E tem Almadenses, muitos. Sim somos muitos mil. E fazemos serenatas ao Tejo.
Até o "Olho de Boi" vê isso!

Ainda a grande casa!

[ (...) irá doer sempre. Como um sonho que se perdeu no tempo e no espaço e que se degradou para dar lugar a coisas novas. Mas as coisas novas tardam em chegar. Quem aqui nesta casa nasceu, irá gostar sempre de poder voltar]

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Quando mexemos nas boas memórias, vibrações positivas emanam e a cabeça, essa, fica a mil à hora, rodopiando entre pensamentos.

Contínuo a ir nadar. Faço o pelo menos 2 vezes por semana. É bom para o corpo, dizem os especialistas.

Mas o que eles talvez não saibam, é que é ainda melhor para a alma.

É aquele momento em que se deixa de sentir o peso do corpo . Em que tudo fica mais leve. É o instante em que o mundo fica todo lá fora. Imergir. Emergir. Expirar. Inspirar. É quase um lubrificar da máquina. Um acertar do passo. Um momento de concentração. De controlo. E ao mesmo tempo de um imenso prazer.

Passei quase tantas horas "de molho", como as que passei a dormir. É uma necessidade básica na minha vida. Senão durmo e não como, morro, mas se não nadar, não morro, mas enlouqueço.

Hoje fechei os olhos e imaginei que era aquela menina, do clube Lisnave, cheia de vontade de um dia vingar na modalidade e ganhar, ganhar muito.
Foi nesta casa que tudo começou. A paixão. A vontade. A entrega. A necessidade básica. Um modo de estar na vida.

Quanto ao resto, irá doer sempre. Como um sonho que se perdeu no tempo e no espaço e que se degradou para dar lugar a coisas novas. Mas as coisas novas tardam em chegar.
Quem aqui nesta casa nasceu, irá gostar sempre de poder voltar.

O clube que chamavamos Lisnave!

[Era raro encontrar uma família, que não tivesse um marido, um primo, um tio ou até mesmo um vizinho a trabalhar na LISNAVE. Haviam ruas inteiras. Desciam em grupos a Mutela.
Os locais, como o meu pai, sabiam o desvio. Pela ribanceira, onde hoje é a Quinta da Alegria e encurtavam muitas vezes o caminho.]

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Estes dias foram intensos.
Não só porque perdi um dia de descanso, o que encurta o fim de semana, de si já tão curto.
Mas com a velocidade com que as memórias me têm invadido estes dias, sinto que se aproveitasse este potencial, podiam sair daqui coisas bonitas.
Mas já é tão tarde e não me posso alongar muito.

Queria contar-vos, que quando era criança, estas 7 letras juntas simbolizavam muito mais que um dos maiores estaleiros navais do mundo. Simbolizavam muito mais que o trabalho da vida do meu pai. Era um mundo dentro do mundo. Uma família que se prolongava da que se tinha em casa. A casa mãe, onde tantos, mas tantos entraram rapazinhos e se fizeram homens. Aprenderam um ofício.

Era raro encontrar uma família, que não tivesse um marido, um primo, um tio ou até mesmo um vizinho a trabalhar na LISNAVE. Haviam ruas inteiras. Desciam em grupos a Mutela.
Os locais, como o meu pai, sabiam o desvio. Pela ribanceira, onde hoje é a Quinta da Alegria e encurtavam muitas vezes o caminho.

E havia um clube. Onde aprendi a nadar. A sonhar. A treinar. A competir até ao dia em que o querer mais me levou a sair. Deixei a casa mãe, mas fui para outra grande casa mais à frente na avenida: A SFUAP.

Mas nunca esqueci aqueles recantos. Voltei quase 20 anos mais tarde a esta casa, para ensinar, o que lá tinha aprendido: a nadar. Um ou dois anos depois de sair e ir trabalhar na minha área de estudo, o Clube Lisnave fechou.

Todos os anos, dia 1 de Junho, a piscina desse clube abria aos Almadenses e íamos, nós, as crianças, pintar o muro do parque infantil que lá existia e a tarde terminava com valentes mergulhos a comemorar o nosso dia e a abertura da época balnear.

Durante os primeiros anos da minha infância, tive a sorte, de ter aquele paraíso como quintal o ano inteiro.

Quando às 16h30m, o alarme de saída soava, o serralheiro mecânico saía e transformava-se. Passava a ser o director da piscina, o "senhor faz de tudo" para que no Verão seguinte a piscina voltasse a abrir para quem quisesse dela usufruir.
Vi o meu pai, ser jardineiro, carpinteiro, pintor, varredor, nadador salvador e até homem da casa das máquinas.
E enquanto ele andava por ali, eu andava por ali também. Espaço não me faltava.

Quando se aproximava o meio do mês de maio, chegava a altura de começar a encher. Era o verdadeiro momento solene para mim. E quantas mas quantas vezes aquela piscina começou a encher comigo lá dentro, completamente eufórica, pois afinal, estava a chegar mais um Verão.
- Vou abrir! - gritava o meu pai - Vou abrir!!!!!

Ele abria as válvulas e a água começava a entrar.
Era a felicidade pura de uma criança que tinha o paraíso nos pés.
Olhar para aquilo agora é indescritível. Há momentos em que as palavras são pequenas para descrever o que sentimos.
Olho para aquilo agora e só me apetece chorar.
Fui tão feliz ali. Era feliz todos os dias. Todos os dias.

Um regresso inesperado... à casa da minha infância!

[- Eu era da Lisnave! Velhos tempos estes! Grande estaleiro! - ainda dizem com orgulho.
Alguns ainda guardam por teimosia e saudade, o seu fato de macaco cinzento, com as letras atrás em azul escuro onde se pode ler: LISNAVE.]

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 O evento está longe de ser consensual, mas é como tudo na vida. Quem gosta, gosta. Quem não gosta, irá sempre dizer que há outras coisas [e há], que estes desportos são para meninos abastados [e talvez até sejam, mas eu sempre gostei os de ver], que há outras prioridades [e talvez até hajam].
O que é certo é que foi algo inédito, pelo menos que eu me lembre. Trouxe gente.
Num espaço cheio de história. Aquele que um dia foi o maior estaleiro naval do país. Local onde o meu pai, trabalhou a vida inteira até se reformar.
Eram trabalhos para a vida toda estes. Rapazes que entraram moços e saíram, longos anos depois. para a reforma, deixando ali uma vida inteira. Sobrevivendo aos difíceis anos 80 que por ali se viveram, com meses a fio sem receberem os ordenados. Como eu me lembro desses tempos. De o meu pai não receber.

- Eu era da Lisnave! Velhos tempos estes! Grande estaleiro! - ainda dizem com orgulho.
Alguns ainda guardam por teimosia e saudade, o seu fato de macaco cinzento, com as letras atrás em azul escuro onde se pode ler: LISNAVE.

A LISNAVE, desde miúda que não entrava ali.
Hoje entrei. Revi corredores que percorri com o meu pai. Vi a degradação dos anos, que passou forte por ali. Doeu. Doeu pois. Sentimos que o tempo passou e depressa. Um depressa que quase não demos por ele, mas que é tão visível por aquelas paragens.
Mas depressa o "roncar" das máquinas interromperam os meus pensamentos e o trabalho chamava.
Hoje andei por aqui. No Almada Extreme Sprint. Em trabalho.
Se foi bom? Claro que sim.

Eu sou daquelas que gosta de ouvir o roncar das máquinas. Só não me convidem para entrar. Sou cá uma piegas!!!

O reencontro!

[A luz era intensa. Cortando as cores. E o calor também. Igual ao de uma tarde de Agosto, mas em Outubro.]

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 Ontem voltei a reencontra-los.
A luz era intensa. Cortando as cores. E o calor também. Igual ao de uma tarde de Agosto, mas em Outubro.
A única coisa perfeita foi o fazer coincidir com a baixa-mar. Não correu muito bem, mas eu volto lá. Resistir, insistir e não, nunca, desistir!
Ontem à tarde, foi dia de respirar ar puro, ainda que alguns digam que por ali cheira mal, eu devo ter sorte e os flamingos também. Foi dia de observar os pássaros e de assistir aos últimos voos dos flamingos por estas paragens.

Gosto destas tardes assim. Sozinha com a minha companheira de eternizar breves momentos.
Sou uma sortuda! Bom fim de semana prolongado a todos os que perdem um pouco do seu tempo No pó da Bagagem, ainda que não seja a sua.

Sapal de Corroios. 2018

Vamos tirar uma fotografia?

[Não é isto o que se vê da maior parte do território Almadense? Lisboa?]

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- Vamos tirar a fotografia mas, virados para ali, com o rio a fazer de fundo!- disse - com um pouco de sorte e ainda passa o Cacilheiro também.

- Ahl! Assim fica a ver-se Lisboa. - ouvi alguém dizer-me e já não é a primeira vez que ouço alguém dizer-me isto.

Dei por mim a divagar.

Não é isto o que se vê da maior parte do território Almadense? Lisboa?

Dou comigo a pensar que Almada tem um tanto que é tudo ou quase e ainda tem isto... a melhor vista para a capital. Para mim é um extra muito mas muito significativo.
Gosto de poder dizer que da minha "aldeia" vê se o mundo e é verdade.

Minutos depois, o cacilheiro passou. Faz parte da paisagem. Da mobília.

Não haviam "tecnologias destas" nos tempos em que íamos para o Bairro Alto e depois ao Johnny Guitar. Corriam os anos 90. E todos sabíamos os horários dos barcos.
Se houvessem, na altura pareceriam naves espaciais, saídas de um episódio da Guerra das Estrelas de George Lucas. Um clássico que, ao contrário do que parece ser a triste sina do velho cacilheiro, não passa de moda.

O novo cacilheiro, que aqui rumava ao Porto Brandão.
E as histórias que eu vos poderia contar de tão nobre paragem e de mergulhos no Tejo, tal qual meninos do rio.
Mas terá que ficar para um outro dia.

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