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Maria Bolacha

Maria Bolacha ou Bolacha Maria. Alcunha da adolescência que persisto em conservar.

Maria Bolacha

Maria Bolacha ou Bolacha Maria. Alcunha da adolescência que persisto em conservar.

A carta que nunca te escrevi!

[Talvez um dia volte a Barcelona. Sei lá. Talvez.]

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 Por esta altura, já deves ter fugido para terras de Espanha. Mais precisamente Barcelona, tentando fazer com que a distância seja, mais uma vez, tua aliada. Ou não. Mas talvez fosse o melhor a fazer. Assim torna-se mais fácil, vais ver que sim.

Barcelona é a cidade que não dorme, a cidade onde uma "solidão acompanhada" persegue-nos para onde quer que vamos. E eu, tenho a certeza de que no meio de tantos caminhos, irás descobrir o teu.
Já eu, continuo a frequentar os mesmos lugares, a passar nas mesmas ruas e esquinas da minha "velha" e "cúmplice" cidade, aquela onde sempre vivi e que guarda todos os meus desejos e segredos.
Talvez sejam as raízes a limitarem-me o horizonte e a tornarem os meus voos curtos de forma a conseguir sempre regressar. Talvez as minhas asas sejam de papel. Frágeis. Talvez tenha medo de deixar que a maré me leve para onde ela quer que eu vá. Eu que sempre aprendi a nadar contra a corrente, não gosto de deixar me levar.


Não faço como tu que nadaste ao sabor da corrente, de forma a apressares o percurso e chegares mais depressa ao destino. (será que era o ponto de chegada ou ainda te atrasaste mais?)
Prefiro ir deslizando, lentamente, aproveitando cada momento e cada etapa do percurso e com eles aprender algo de novo que faça-me sentir que evoluí, que cresci um pouco mais como ser humano. E isso é muito importante também.
Não sei se a pressa te dá tempo de olhares em volta e pensares nisso.

Eu quero atitudes e tu não gostas de correr.

Talvez um dia, me canse e fique simplesmente a boiar, a ver onde a maré me leva.

Talvez um dia volte a Barcelona. Sei lá. Talvez.

Móss Grazina, já me chorem os olhes camande....

[quando lá chegou, deu com o bom do Grazina em cima da sua mulher. Conhecedor das coisas da bola e fiel adepto do 'olhanense' fez-lhe, de imediato, o reparo:- móss, grazina?...atão, amanhã, tens um jogo de responsabilidade e tás a fazer um desforço destes a esta hora???]

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Que alegria imensa descobrir esta caricatura do meu avô, ao que consegui saber feita pelo ilustrador Adriano Baptista. Encontrei-a no blogue de António Boronha, (http://antonioboronha.blogspot.com/2007/03/filhos-dlho.html), um blogue que descobri quando andava a pesquisar coisas do meu avô, a Velha Rosaira, o Grazina do Olhanense, jogador de futebol até aos 45 anos e figura incontornável dos tempos primórdios do futebol em Portugal.

O autor do blogue não é um filho "d'Ólhão", é de Faro e teve a proeza de conseguir comover-me com um texto que publicou no dia 21 de Março de 2007, em que fala do meu grande herói: o meu Avô. Compara-lo a Cristiano Ronaldo em 2007 já parece absurdo, quanto mais agora. Mas creio que consegue passar a ideia. Na altura jogava se por amor, sim por amor, à camisola. Sem frescuras, sem mariquices, sem milhões, mas com muita classe, muita vontade e muito amor ao emblema que se carregava ao peito. O meu avô sempre trabalhou e jogou ao mesmo tempo. Nunca quis sair de Olhão, nem do Olhanense. Foi homenageado em vida pelo clube e pela Câmara Municipal de Olhão. Jogou até não poder mais. Até aos 45 anos. Sim, eu disse 45 anos e na primeira divisão. No entanto há quem afirme que podia ter jogado mais, mas que estava farto de ouvir: "lá vem o pai e com os seus filhos".

O meu avô foi um guerreiro incansável, um futebolista à moda antiga que jogava por amor ao futebol.

O texto, passo a transcrever:

"A propósito de manifestas preocupações sobre as consequências do esforço a que terá sido submetido Cristiano Ronaldo na filmagem de um anúncio para um patrocinador da selecção nacional, não resisto a contar a história, que sempre correu como verídica, passada com o famoso jogador-pescador, Manuel Grazina ao serviço do Olhanense, no início dos anos quarenta: um sábado, quando ia para a faina da pesca, tendo-se levantado um enorme temporal a que no sotavento algarvio se chama 'sueste', um pescador da terra viu-se obrigado a regressar mais cedo a casa. Quando lá chegou, deu com o bom do Grazina em cima da sua mulher. Conhecedor das coisas da bola e fiel adepto do 'olhanense' fez-lhe, de imediato, o reparo:- móss, Grazina?...atão, amanhã, tens um jogo de responsabilidade e tás a fazer um desforço destes a esta hora???... Já não há filhos de olhão com esta dedicação ao clube. Porque, se os houvesse, há muito que o histórico emblema estaria na primeira liga..."

Subir até subiu, 39 anos depois, mas depressa, desceu de novo.

Móss Grazina, as tais mariquices camande.

[és a minha estrela mais cintilante]

 

Mergulhos no Tejo, quem já deu?

[Curioso como a vida é feita de pequenos pormenores! Pequenos momentos, toques, cheiros, palavras.]

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O "croissant" torrado com manteiga e a meia de leite que bebia no café "Brito" no Pragal com 16 anos, o som da minha avó a descascar favas e batatas na minha infância, enquanto a ajudava a fazer a minha sobremesa favorita. O cheiro único da casa da minha tia Mila e do meu tio Manel, onde passava alguns dias das férias de Verão com os meus primos! As ervilhas que eu fingia gostar e que sorrateiramente guardava no bolso para depois mandar fora! As bombocas de morango com que nos deliciávamos nas tardes passadas a andar de bicicleta na rua. As vezes que nos fechávamos dentro da tenda e fingíamos estar a dormir, só para não nos expulsarem da festa, porque queríamos ficar lá até segunda-feira. (sim, porque não há festa como aquela). Os valentes mergulhos do pontão, os passeios no barco do meu pai e as braçadas Tejo afora nas tardes de Verão de Agosto, que pareciam não ter fim.


A vida é feita de memórias e as memórias, feitas de pormenores que fazem toda a diferença. Enquanto os vivemos não pensamos muito neles, mas eles ficam eternizados em nós.
A casa da minha tia Mila e do tio Manel, o lar, onde o meu pai cresceu, por ter ficado órfão, não podia ficar vazia. Não podia. Mesmo que com as obras mude o cheiro, porque vai mudar, mesmo que os meus tios já tenham partido há uns meses e não voltem. As memórias estarão sempre escritas naquelas paredes, no vau de escada, na varanda de onde se vê o rio, aquele rio tão nosso, com Belém ao fundo.

Fui tão feliz aqui!!! Tão feliz ali!

Deixei a casa mágica uns anos depois de escrever este texto e a verdade é que ainda hoje sinto que falta um pouco de mim. Estou longe da essência catraia, de quem cresceu aos mergulhos e fez do Tejo a sua rua.

Um dia destes faço como os miúdos. Aliás, eu já fui um dos miúdos da fotografia. Quando foi o meu tempo de o ser. Sei o que se sente. Não desperdicei o momento. Posso dizer: "Been there, seen that".

 

Tubos corrugados de polipropileno. WTF is that?

Almada, 25 Janeiro, 14h30m. Ainda bem que resolvi aproveitar o sol.IMG_3129a mini.jpg

Cheguei ao estaleiro da obra da R. Luís de Queirós e vi logo o "empilhamento em massa" de tubos corrugados de polipropileno. Uauuuuuu, pensei. Os senhores da obra não acharam muito normal o meu entusiásmo mas, também, não espero ser compreendida por todos.


Apesar do seu nome esquisito estes tubos estão por todo o lado, por todo o concelho de Almada e não só. Não adianta procurarem-nos porque não os vão encontrar. ...Estão enterrados. Bem enterrados.
No Município de Almada estão construídos mais de 1000 Km deles. Fazem parte da nossa saúde pública, são propriedade de todos os Almadenses. (neste caso)

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 Todos juntos compõem o sistema de drenagem de água residual da cidade e não só, os de maior diâmetro, encaminham as águas da chuva para os rios e mar, de forma a que esta possa voltar ao seu ciclo natural, em vez de ficarem a bloquear as nossas estradas ou acumuladas em supressões no terreno.


Têm um trabalho árduo estes tubos. Sobretudo os de água residual. Terão que resistir ao desgaste, à corrosão imanente dos detritos moribundos que a raça humana produz. Do xixi, do cocó, detergentes, água suja da loiça e todas essas coisas normais mas não só. Há depois todas as outras coisas que insistentemente teimamos em continuar a enviar para eles receberem. Neste caso falo de coisas como: medicamentos, produtos químicos, cabelos, restos de comida, cotonetes, fraldas, coisas que deveriam, se todos fossem conscientes, ir para o lixo.


Todos temos uma missão. Estes tubos têm a missão de levar a nossa “água suja” para uma estação de tratamento de águas residuais. A água é tratada, através de um processo que custa muito mas muito dinheiro. Um longo percurso, que não precisa ser acompanhado de lixo que não faz parte desta história. Nem muito menos, poderá ser a personagem principal.

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 Olhando para estes tubos corrugados de polipropileno, caros, e tão importantes no nosso dia a dia, penso que em 12 anos disto, nunca tinha visto tanto tubo junto, penso que em breve seguirão o seu destino e estarão enterrados algures entre a Luís de Queirós e a Praça da Renovação. As pessoas vão continuar a passar e passar, por ali todos os dias e eles continuarão invisíveis mas imprescindíveis para o dia a dia da cidade.
Lembro me da velha máxima de que todos somos importantes na casa onde trabalho.
São como as coisas. Cada uma com a sua missão. A dos tubos corrugados de polipropileno é esta.
Triste sina.